Escrever, Humildade, Técnica – por Clarice Lispector

Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de… de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse “estilo” (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em “humildade” refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.
Clarice Lispector
Extraído do livro A Descoberta do Mundo, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1999.

leia na Doc:

Entrevista de Clarice Lispector

Atenção ao Sábado – Clarice Lispector

Restos do Carnaval – Clarice Lispector

Os defeitos de Clarice

Rifa-se um coração (Clarice Lispector)

Citações de Clarice Lispector

De Corpo Inteiro – Um filme poético sobre Clarice Lispector

Bienal Internacional de Artes de São Paulo

Desde sua fundação a Bienal promove o contemporâneo nas artes visuais. Há tempos que a Fundação Bienal apresentava além dos novos artistas, o núcleo histórico, responsável por resgatar os grandes nomes e feitos na história da arte. O que atraía multidões de pessoas de todas as regiões do Brasil e de outros países também. Colocado estrategicamente no terceiro piso do prédio da bienal, o núcleo histórico possuía climatização apropriada, salvaguarda e um número mínimo de visitantes. Após visitar o núcleo, as pessoas desceriam por todos os outros pisos conhecendo e interagindo com outras obras, principalmente com as propostas de trabalhos de artistas, de diversos países do mundo. Sem contar a beleza artística da obra arquitetônica de Oscar Niemeyer. Além da infra-estrutura necessária, como segurança, acessibilidade, ação educativa, folders, catálogos, cafés, toaletes, lojinhas e atendimento ao turista nacional e internacional. Mas, nas últimas edições da Bienal Internacional de Artes de São Paulo, infelizmente não é o que vemos! Além da infra-estrutura que deixa muito a desejar, a ação educativa não estimula a interatividade e o diálogo artístico com os grupos de visitantes, o material informativo é precário, e catálogos e folders não são acessíveis. Não temos mais o núcleo histórico, e no terceiro piso, o que tivemos na última edição, que terminou no final de semana passado, foi um grande vão! A bienal tem em sua história a contemporaneidade e a vida da arte, de dois em dois anos, tínhamos movimento, crítica, questionamentos, que duravam com certeza mais de dois meses! Se, estamos pensando em alfabetização estética, em arte para todos, precisamos pensar no nosso maior bem artístico, aquela que já foi o maior evento artístico no mundo: A Bienal Internacional de Artes de São Paulo

O eu em ti

Hoje acordei…
E ao me olhar…
Vi você…

O que achava ser seu…
Presenciei em mim…

Como poder falar do outro…
Sem, ao menos, refletir sobre o meu eu?

Muito do que enxergo em você…
Está presente em mim…

Sob qual ponto de vista…
Devo encarar a realidade?

Sob a perspectiva da consciência…
Consciência de que para entender o próximo…

É necessário se colocar no lugar dele…
E através da imaginação, vivenciar o seu cotidiano…

Cotidiano que é particular daquele que o vivencia…
Porque somos singulares…

Visualizamos os acontecimentos a partir da nossa ótica…
Sem levar em conta as diferenças entre os seres humanos…

O meu eu está em ti…

E ao falar sobre você…
Estou falando sobre mim…

O que sou hoje…
É o resultado das relações que mantive no decorrer da minha existência…

Relações que testemunham…
As trocas entre nós: eu e ti…

Escrito por: Silvia Groberman publicado no site http://www.usinadeletras.com.br

O Livro do Amor Demais

Ele estava ali, entrando sem pedir licença, apenas observando. Mas o olhar já é de alguém que sabe que veio para ficar. Como contemplar a mais linda das paisagens, deixando dentro do corpo uma imensa onda de calor e felicidade, sem maiores explicações. O sorriso é inevitável, a vontade de cantar todas as melodias, de sair dançando pelo céu azul – ora, parecer viver em outro planeta, um lugar único! Ao mesmo tempo, que a paz é instaurada, os riscos do imprevisível, da falta de controle, de que tudo pode acontecer a qualquer e em qualquer momento – instigante! Quando ele é presente os lábios ficam vermelhos, feitos carmim, os cabelos brilhantes, sabores diferentes, as cores – feito arco-íris! A vida parece ser singular e ao mesmo tempo curta demais, para tantos feitos. À tarde chuvosa, o orvalho da manhã, a praia ensolarada, o vento do leste, vão recebendo, acomodando: O Amor!

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