O Professor que queria ser Deus
Era uma vez um professor que queria ser Deus.
Todo dia ele falava a seus alunos sobre a necessidade de se preparar para enfrentar os riscos permanentes de cometer erros e se iludir com as mais diversas situações da vida cotidiana, armando a mente de cada aluno para o combate rumo à lucidez e bom senso.
Estudava junto com seus alunos as características cerebrais, mentais e culturais dos conhecimentos humanos, assim como seus processos para a aquisição desses conhecimentos. Ensinava que o ser humano é um ser físico, biológico, psíquico, cultural, social, histórico, emocional, sexual, enfim, ensinava a diversidade e o que significa ser humano.
Alguns alunos se conscientizavam sobre a condição humana complexa e única e ao mesmo tempo comum a todos os humanos, mas outros não se conscientizavam disso e continuavam tratando seus colegas como estranhos, diferentes, de menor valor.
Ele também ensinava que é preciso conhecer tudo que as ciências descobriram e o sistema educacional fragmentou, para que o conhecimento fosse eficaz. Ele fazia isso falando da natureza, da literatura, da filosofia, da história. Alguns alunos ficavam curiosos e procuravam entender cada vez mais sobre esses assuntos, outros dormiam e achavam aquilo tudo muito chato.
Ele mostrava através dos erros cometidos pelas civilizações antigas que o destino do planeta é responsabilidade de todos e que devemos assumir a identidade terrena, antes de qualquer nacionalismo ou regionalismo, falando do destino comum a todos os homens e mulheres.
Alguns alunos até se emocionavam e se preocupavam com o que estamos fazendo ao mundo, mudando atitudes de opressão e de desrespeito com os humanos e os animais, as matas e os rios. Outros continuavam jogando “bitucas” de cigarros nas ruas e latinhas pela janela do ônibus.
Falava aos seus alunos da necessidade de enfrentar as incertezas da vida, abandonando o medo e as concepções deterministas da história humana, estudando os grandes desastres e acontecimentos do nosso século para que todos ficassem preparados para saber enfrentar o inesperado. E falava também da importância da compreensão mútua como única forma de sairmos da barbárie que nos encontramos nos tempos atuais, ensinando sobre ética e o caráter ternário da condição humana, de indivíduo, sociedade e espécie.
De novo só conseguia ensinar alguns alunos que compreendiam que o desenvolvimento das autonomias individuais se dá melhor nas participações comunitárias, enquanto outros só pensavam em si mesmos, em seu benefício próprio, em seu próprio bem estar.
Alguns professores falavam: pra que tudo isso? Essa juventude não se importa com nada, não tem interesse em nada, só pensam no agora, não gostam de estudar, nem de ler, nem respeitam os mais velhos e os professores. Você é louco. Você está querendo ser Deus.
E no final do dia esse professor voltava para sua casa, lia muito, preparava sua aula e se preparava para o dia seguinte, para mais uma vez tentar, com a educação, mudar o mundo, transformando num mundo alegre, justo e solidário.

Quem Quer Ser Um Milionário?
A trajetória de um jovem indiano, oriundo de uma favela, pobre e analfabeto, que participa de um programa de perguntas e respostas (uma espécie de Show do Milhão indiano) e consegue chegar a um nível que nem intelectuais conseguiram, conquistou o mundo e ganhou dezenas de prêmios em diversos lugares, dentre eles, 8 Oscars, incluindo Melhor Filme.
Quem Quer Ser Um Milionário? (o título original é Slumdog Millionaire – algo como “Favelado Milionário”) é um filme independente, feito com pouco dinheiro e sem ligação com os grandes estúdios norte-americanos. O filme é uma produção inglesa, mas totalmente filmado na Índia.
Trata-se de uma mistura entre a estética dos filmes independentes de arte e a estética da Bollywood (indústria cinematográfica indiana, marcada pela enorme produção de filmes e o grande sucesso de público e cujos filmes são, quase todos, musicais de histórias de amor). A direção de Danny Boyle garante parte do tom do filme, ágil, enérgico e intenso. O diretor usa ângulos de câmera incomuns, faz planos originais, dando mais vivacidade e originalidade ao projeto. Entretanto, Boyle derrapa no tratamento do tema, não conseguindo extrair mais de sua trama superficial. Outros pontos fortíssimos do filme são a montagem – também muito ágil, criativa e brilhante nas junções de cenas do passado com cenas do presente do personagem -, a fotografia – bem trabalhada com luz/escuro e usando tons intensos, com predomínio de amarelo e laranja, ou tons lúgubres – e o setor sonoro, com destaque para a mixagem de som e a trilha musical.
Entretanto, fica no ar a questão de se este realmente é um filme tão extraordinário para ter recebido tantas homenagens, prêmios e atenção. Não há dúvidas de que é uma ótima produção, mas fica longe de ser uma realização fantástica. Provavelmente, muitas pessoas esquecem que Quem Quer Ser Um Milionário? é, em si, um retrato das peripécias de 3 crianças faveladas e, depois, das dificuldades do amor entre duas delas. Não há maior profundidade, complexidade ou originalidade temática. E isto enfraquece o filme: sua trama, em maior parte, esquemática e batida. Além de certos acontecimentos na trama serem muito forçados e piegas. Nada mais é do que uma trama novelesca e maniqueísta, composta de personagens mal desenvolvidos e situações forçadas.
Há quem estabeleça ligações entre este filme e o brasileiro Cidade de Deus. Sem dúvida, Quem Quer Ser Um Milionário? é inspirado pelo filme brasileiro (que fez muito sucesso no exterior), notadamente na abordagem de um meio paupérrimo para criar uma trama de entretenimento. Entretanto, o filme de Fernando Meirelles é muito superior a este, principalmente pela maior complexidade temática, pelo excelente roteiro e a direção ímpar de Meirelles. Pena que o mundo tenha preferido se render a uma obra inferior do que à grande obra inspiradora.
Quem Quer Ser Um Milionário? cotação:***
Slumdog Millionaire.Inglaterra/Índia, 2008. De Danny Boyle. 120min. Drama/Romance

Mundaréu – Cristiana Mello Cerchiari
Bem vindos a Tv Debolso! Estamos iniciando hoje uma nova etapa em nossas vidas com o início das transmissões da Tv Debolso, gostaria de agradescer a sua audiência e prestigio, há um caminho longo a percorrer para alcançar nossas metas, mas esperamos sempre contar com a colaboração de todos que acreditam em nosso projeto.
Para nossa estréia selecionamos o programa Mundaréu, mediado e produzido por Elaine Gomes!
Sobre o Programa:
Mundaréu, é um programa que privilegia a diversidade artística e cultural. Destinado ao público de todas as idades, tem a intenção de promover o conhecimento e provocar: reflexões, ações e discussões. Mostrando o que acontece no Brasil e no Mundo!
Nesse programa, Elaine Gomes entrevista Cristiana Mello Cerchiari, docente, bilingue e deficiente visual. Atualmente se dedica a sua dissertação de mestrado na FEUSP – faculdade de educação da USP, sua pesquisa é destinada as novas tecnologias para a deficiência visual. Em uma conversa para lá de agradável, Cristiana conta como é ter acesso digital sem ser excluída.
Assista o programa, deixe seu comentário e sugestão para as próximas pautas
(Davi Sant Anna)
obs: O programa foi citado no site da Rede SACI – USP Legal http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi¶metro=25104
Descalça ao chão
Tenho a sensação de que o tempo não passou para mim. Que tudo é tão distante da realidade, mesmo me vendo diante da realidade. Para mim, não há muito mais do que esperanças destroçadas no chão, de um sonho passado que não se realizou do modo idealizado que eu desejava que hoje o fosse. Tenho a sensação de que o externo é sempre melhor, e que em mim nada nunca foi tão mais infante.
Peço licença ao mundo de pessoas extravagantes, por que o meu mundo é tão diferente. Assim, eu simplesmente saio com a minha realidade inventada; com o meu mundo infame, com os meus sonhos destroçados e de mãos ao alto, como se a realidade tivesse roubado meus sonhos de mim.
Não há rumo nesse mundão! Você quem faz seus próprios passos, e não adianta tramar mentalmente por onde vai passar, por que sempre há uma pedra que te faz desviar… Caminhar nas pedras é sempre mais difícil, ainda mais quando se caminha descalço.
Falando nisso, onde foi que deixei os meus sapatos?

