Análise do filme “Apenas o Fim”
São Paulo, 1 de julho de 2009
São Paulo, 1 de julho de 2009
Matheus Souza é um jovem carioca, estudante de cinema da PUC do Rio de Janeiro, que, ano passado, quando estava no terceiro ano de faculdade, resolveu escrever um roteiro e, tendo este pronto, correu atrás dos meios para tornar sua história em filme. O resultado foi uma produção, realizada com dinheiro e recursos escassos, mas dotada de muitos pontos que a diferenciam da atual cinematografia brasileira e fizeram o filme ganhar destaque, angariando prêmios no Festival do Rio e na Mostra Internacional de São Paulo.
O filme apresenta um casal de jovens namorados em uma situação difícil: ela diz que vai partir, sem revelar o destino, e que só tem mais uma hora para passar com ele. Os dois então, aproveitam esse tempo conversando sobre si mesmos, a relação, o amor e o mundo que os circunda. Também vemos pequenas cenas de conversas anteriores do casal.
O que vem chamando a atenção para o filme é o fato de ele inovar na temática, nunca vista antes no cinema nacional, abordando temas da cultura pop dos últimos anos e o comportamento da juventude classe média de hoje, tecendo não apenas uma conversa entre namorados, mas o retrato de uma geração, através de pontos, até então, só vistos no cinema norte-americano.
Eles falam sobre boy-bands, música, desenhos animados, videogame, programas de TV, filmes, jeito de se vestir e a forma como este segmento da juventude vê o mundo, vê o amor e se relaciona.
O filme é baseado no diálogo e na interpretação. Os 80 min de filme são longos diálogos entre os protagonistas, diante de uma câmera estática ou que acompanha o andar dos dois. As personagens são extremamente bem desenvolvidas, são atrativas, peculiares, passíveis de serem reconhecidas, facilmente, em jovens conhecidos. As falas, igualmente bem trabalhadas, chamam a atenção pela originalidade, mas também, pela sinceridade, pelo despojamento, pelo humor leve e verdadeiro, prendendo a atenção. De fato, o roteiro é o principal trunfo do filme. Entretanto, em certos momentos, os diálogos perdem o atrativo, tornam-se arrastados e cansativos. Mas o roteiro acerta muito bem no final.
O casal de atores domina a tela praticamente durante o filme todo. Érica Mader, apesar de não apresentar uma grande interpretação, sai-se muito bem, soando sempre natural, verdadeira e charmosa – como sua personagem é. Já Gregório Duvivier, apesar de esforçar-se e ter um personagem nas mãos, acaba soando menos verdadeiro e deixa transparecer o que é: um ator interpretando um papel.
Devido às limitações dos recursos, o filme foi filmado em pouco tempo e com limitações técnicas. Souza quase nunca se aventura no plano/contraplano, o que é muito interessante e original algumas vezes, mas que faz falta em certos momentos, que poderiam ser potencializados pelo uso da clássica técnica de retratar diálogos. O diretor também se perde algumas vezes ao fazer planos mais abertos, quando a situação pede planos mais fechados (e vice-versa). Mas, por outro lado, consegue certos planos muito bons e elaborados (como quando o filma, de cima, o casal sentado no primeiro degrau de uma escada). Sua decisão em colocar as conversas do passado em preto e branco também funciona. Entretanto, quando, a certa altura, ele filma uma cena do presente em preto e branco, tal recurso perde o charme e a função de outrora. A decisão por uma linguagem mais jovem, muitas vezes dividindo a tela, usando câmeras lentas, cenas que não estão alocadas no tempo da ação, recursos de grafismo, também é uma boa escolha e condiz com a proposta do projeto.
APENAS O FIM
Brasil, 2009. De Matheus Souza. Com Érica Mader, Gregório Duvivier, Nathália Dill e Marcelo Adnet. COMÉDIA DRAMÁTICA. 80 min.
Cotação: ***(Bom)
Comentários
01 comentário no texto: “Análise do filme “Apenas o Fim””
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Assisti esse filme, e gostei muito [pra quem não tem nenhum amor por filmes romanticuzinhos, isso é um elogio], até mesmo pq a parte “romântica” do filme não é lá tão romântica, e sim real. São diálogos e acontecimentos que a gente vê no nosso dia a dia, e não aquela coisa hollywoodiana do “se encontraram, se amaram e viveram felizes para sempre”.
E a simplicidade do filme, que nos dá uma leve impressão de “eu poderia ter feito isso”… pô, isso tudo é mto legal! Parabéns pro Matheus, e espero ver outros trabalhos dele tão bons quanto este mais pra frente.