Crítica do Filme – A Partida
São Paulo, 22 de junho de 2009
São Paulo, 22 de junho de 2009
Por: Elton Almeida
A premiação do Oscar desse ano causou surpresa ao ignorar o francês Entre os Muros da Escola e o israelita Valsa com Bashir – duas inovadoras obras-primas – na categoria de filme de língua estrangeira, premiando o candidato japonês, até então pouco conhecido. É, entretanto, compreensível tal fato, visto que A Partida é um filme, ainda que narrativamente convencional e, de certa forma, previsível, que acumula muitos pontos positivos, sendo um ótimo drama de temática diferenciada.
O filme se concentra em Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki), um ex-violoncelista, que possuía um trabalho socialmente elevado de tocar numa grande orquestra em Tóquio, que, de repente, é dissolvida por seu dono. Daigo, precisando de dinheiro, retorna à sua cidade natal, junto com a esposa, no norte do Japão, e lá consegue um inusitado emprego: torna-se um “nokanshi”, uma espécie de coveiro especial, mestre em lavar e vestir cadáveres. Essa função advém de uma antiga tradição japonesa, de deixar o morto limpo, belo e bem tratado para seu último momento, função antes exercida pelas famílias dos mortos, mas já meio esquecida e agora por conta de profissionais. Com esse emprego, Daigo consegue o dinheiro que estava precisando, mas esconde seu emprego da mulher e amigos, pois tal função é vista como algo vergonhoso e, no início, até ele assim a vê, como algo desprezível, o toque com o dejeto mortal.
É interessante observar como essa mudança na vida do protagonista engloba vários aspectos. É uma volta para a cidade natal, mas, além disso, uma volta para o passado, para o contato com pessoas de outrora e com traumas de outrora – o relacionamento mal resolvido com o pai ressurge de forma decisiva. Essa volta também é uma representação quanto à nova função de Daigo: em um Japão cada vez mais “moderno” e ocidentalizado, ele passa a lidar com uma antiga tradição tipicamente nipônica. Também, paradoxalmente, é uma época de novidade para Daigo, de lidar com a frustração no trabalho, de se adaptar, de refletir sobre sua vida e seu passado, mas também sobre a vida e a morte.
A análise que o filme oferece sobre a morte, aliás, é muito rica. Longe de clichês como “a vida é curta e é preciso aproveita-la” e “a morte é inevitável”, a trama, inicialmente, olha para a morte pelo lado material, tendo Daigo encarando as situações de seu trabalho como insólitas, ao lidar com corpos já sem vida. A morte é vista como algo plenamente corporal e o trabalho de nokanshi como um mero cuidado final com o corpo de um animal – e há uma comparação indireta muito boa, quando, após realizar um trabalho, Daigo chega em casa e há um frango morto, aos pedaços, em uma vasilha, esperando ser preparado e o protagonista fica nauseado. Mas, conforme o personagem vai se adaptando à profissão, mais ele começa a perceber o sentido e a importância desta. A morte deixa de ser vista como plenamente material, e o diretor passa a extrair poesia e beleza dos últimos momentos do corpo na Terra. O trabalho do nokanshi é então compreendido como uma função nobre, que “limpa” o morto e dá-lhe a beleza que era sua em vida, deixa-o da melhor forma possível para que sua partida deste mundo seja digna, para seu último adeus para a família seja belo. Várias cenas, em que vemos a relação da família com o morto que está sendo “preparado”, são emocionantes ao mostrar a verdade do relacionamento entre esses, seja como um adeus triste e lamentador, seja como um momento de aceitação da pessoa como ela foi em vida ou como uma despedida feliz por terem vividos juntos e sido felizes.
A forma como as pessoas fora desse núcleo vêem essa profissão também é algo curioso. Para elas, trata-se de um ofício vergonhoso, indigno e absurdo, o que implica uma visão negativa por parte destes em relação ao contato entre mortos e vivos, bem como uma negação de uma antiga tradição cultural. Esses fatores, contrastando com o amor de Daigo pela música, criam no protagonista um grande embate, à medida em que ele está descobrindo-se em um novo emprego, mas ainda sente falta de sua carreira como violoncelista, carreira muito mais respeitada e bem vista.
Ainda apostando no drama, o filme engloba a questão do relacionamento mal resolvido entre pai e filho, a distância entre eles e, em certo ponto da trama, figura uma outra tradição interessante, a da comunicação através de pedras, em que os sentimentos e significados são passados por pedras que figuram a mensagem.
Tudo isso é conduzido pelo diretor de forma extremamente cuidadosa, sensível, sensata e firme. A direção aposta em um ritmo lento, mas nunca arrastado ou irreal, em planos fixos e observadores e em uma misé-em-scene baseada nos sentimentos envolvidos, no intuito de transmitir a sensibilidade e a verdade de cada momento. O diretor ainda coordena bem seu elenco, extraindo de cada ator a interpretação na medida certa, conseguindo um resultado equilibrado e harmônico. Entretanto, exagera em certos momentos em que pensa estar extraindo uma poesia visual, mas na verdade está deixando a cena carregada e melodramática.
Um dos pontos contestáveis do filme é a sua estrutura um tanto quanto previsível e, às vezes, exagerada em sua emotividade, esbarrando em clichês e melodramas. A trilha sonora, por mais bonita e significativa, às vezes é excessiva e pleonástica. A fotografia, por outro lado, consiste em tons pastéis e um pouco dessaturados e na iluminação farta, funcionando muito bem dentro da proposta estabelecida.
No todo, A Partida é um drama de estrutura não-inovadora, mas otimamente bem realizado, que consegue levantar pontos e questões interessantes e sensíveis de forma diferenciada, além de mostrar um panorama interessante sobre um ato cultural japonês, cheio de beleza e poesia, e consistir em uma análise sobre a morte, mas também sobre a vida, as mudanças e o passado.
Filme:A Partida
Cotação ****
Okuribito. Japão, 2008. De Yojiro Takita. Com masahiro Motokim Tsutomu Yamazaki, Kazuzu Yoshiyuki e Kimiki Yo
Comentários
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Vale ressaltar também a dedicação do ator Masahiro Motoki e do diretor Takita que estudaram durante uma década o ritual fúnebre e assim apresentarem uma obra mais convincente, o ator até aprendeu a tocar violoncelo nesse tempo.
Um filme inesquecível. Realmente uma obra-prima do cinema japonês, e porque não dizer mundial. A fotografia, a trilha sonora, o roteiro e direção… tudo perfeito. Plenamente recomendável.
…..Certos filmes tem um lugar reservado no céu!!!! rs….
…..O Fabuloso Destino de Amélie Poulain……Sonho de Liberdade…..A Princesinha….
……são alguns deles….e com certeza…..A Partida…..é mais um….que Deus deve assistir e pensar: A humanidade ainda tem chance…
……Sensível…..ao extremo…equilibrado e emocionante….. um dos melhores filmes japoneses da história
[...] para que sua partida deste mundo seja digna, para seu último adeus para a família seja belo. CULTURA DE BOLSO Publicado em diversos. Deixar um comentário [...]
Mãe melhor filme estrangeiro!!
Através da cultura japonesa de cuidar da aparencia de seus mortos antes de sua partida final, é algo que o filme mostra muito bem e nos dá uma outra visão e compreensão dos verdadeiros sentidos e valores tanto da vida quanto da morte.