Crítica do Filme – A Partida

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Por: Elton Almeida

A premiação do Oscar desse ano causou surpresa ao ignorar o francês Entre os Muros da Escola e o israelita Valsa com Bashir – duas inovadoras obras-primas – na categoria de filme de língua estrangeira, premiando o candidato japonês, até então pouco conhecido. É, entretanto, compreensível tal fato, visto que A Partida é um filme, ainda que narrativamente convencional e, de certa forma, previsível, que acumula muitos pontos positivos, sendo um ótimo drama de temática diferenciada.

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O filme se concentra em Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki), um ex-violoncelista, que possuía um trabalho socialmente elevado de tocar numa grande orquestra em Tóquio, que, de repente, é dissolvida por seu dono. Daigo, precisando de dinheiro, retorna à sua cidade natal, junto com a esposa, no norte do Japão, e lá consegue um inusitado emprego: torna-se um “nokanshi”, uma espécie de coveiro especial, mestre em lavar e vestir cadáveres. Essa função advém de uma antiga tradição japonesa, de deixar o morto limpo, belo e bem tratado para seu último momento, função antes exercida pelas famílias dos mortos, mas já meio esquecida e agora por conta de profissionais. Com esse emprego, Daigo consegue o dinheiro que estava precisando, mas esconde seu emprego da mulher e amigos, pois tal função é vista como algo vergonhoso e, no início, até ele assim a vê, como algo desprezível, o toque com o dejeto mortal.

É interessante observar como essa mudança na vida do protagonista engloba vários aspectos. É uma volta para a cidade natal, mas, além disso, uma volta para o passado, para o contato com pessoas de outrora e com traumas de outrora – o relacionamento mal resolvido com o pai ressurge de forma decisiva. Essa volta também é uma representação quanto à nova função de Daigo: em um Japão cada vez mais “moderno” e ocidentalizado, ele passa a lidar com uma antiga tradição tipicamente nipônica. Também, paradoxalmente, é uma época de novidade para Daigo, de lidar com a frustração no trabalho, de se adaptar, de refletir sobre sua vida e seu passado, mas também sobre a vida e a morte.

A análise que o filme oferece sobre a morte, aliás, é muito rica. Longe de clichês como “a vida é curta e é preciso aproveita-la” e “a morte é inevitável”, a trama, inicialmente, olha para a morte pelo lado material, tendo Daigo encarando as situações de seu trabalho como insólitas, ao lidar com corpos já sem vida. A morte é vista como algo plenamente corporal e o trabalho de nokanshi como um mero cuidado final com o corpo de um animal – e há uma comparação indireta muito boa, quando, após realizar um trabalho, Daigo chega em casa e há um frango morto, aos pedaços, em uma vasilha, esperando ser preparado e o protagonista fica nauseado. Mas, conforme o personagem vai se adaptando à profissão, mais ele começa a perceber o sentido e a importância desta. A morte deixa de ser vista como plenamente material, e o diretor passa a extrair poesia e beleza dos últimos momentos do corpo na Terra. O trabalho do nokanshi é então compreendido como uma função nobre, que “limpa” o morto e dá-lhe a beleza que era sua em vida, deixa-o da melhor forma possível para que sua partida deste mundo seja digna, para seu último adeus para a família seja belo. Várias cenas, em que vemos a relação da família com o morto que está sendo “preparado”, são emocionantes ao mostrar a verdade do relacionamento entre esses, seja como um adeus triste e lamentador, seja como um momento de aceitação da pessoa como ela foi em vida ou como uma despedida feliz por terem vividos juntos e sido felizes.

A forma como as pessoas fora desse núcleo vêem essa profissão também é algo curioso. Para elas, trata-se de um ofício vergonhoso, indigno e absurdo, o que implica uma visão negativa por parte destes em relação ao contato entre mortos e vivos, bem como uma negação de uma antiga tradição cultural. Esses fatores, contrastando com o amor de Daigo pela música, criam no protagonista um grande embate, à medida em que ele está descobrindo-se em um novo emprego, mas ainda sente falta de sua carreira como violoncelista, carreira muito mais respeitada e bem vista.

Ainda apostando no drama, o filme engloba a questão do relacionamento mal resolvido entre pai e filho, a distância entre eles e, em certo ponto da trama, figura uma outra tradição interessante, a da comunicação através de pedras, em que os sentimentos e significados são passados por pedras que figuram a mensagem.

Tudo isso é conduzido pelo diretor de forma extremamente cuidadosa, sensível, sensata e firme. A direção aposta em um ritmo lento, mas nunca arrastado ou irreal, em planos fixos e observadores e em uma misé-em-scene baseada nos sentimentos envolvidos, no intuito de transmitir a sensibilidade e a verdade de cada momento. O diretor ainda coordena bem seu elenco, extraindo de cada ator a interpretação na medida certa, conseguindo um resultado equilibrado e harmônico. Entretanto, exagera em certos momentos em que pensa estar extraindo uma poesia visual, mas na verdade está deixando a cena carregada e melodramática.

Um dos pontos contestáveis do filme é a sua estrutura um tanto quanto previsível e, às vezes, exagerada em sua emotividade, esbarrando em clichês e melodramas. A trilha sonora, por mais bonita e significativa, às vezes é excessiva e pleonástica. A fotografia, por outro lado, consiste em tons pastéis e um pouco dessaturados e na iluminação farta, funcionando muito bem dentro da proposta estabelecida.

No todo, A Partida é um drama de estrutura não-inovadora, mas otimamente bem realizado, que consegue levantar pontos e questões interessantes e sensíveis de forma diferenciada, além de mostrar um panorama interessante sobre um ato cultural japonês, cheio de beleza e poesia, e consistir em uma análise sobre a morte, mas também sobre a vida, as mudanças e o passado.

Filme:A Partida

Cotação ****

Okuribito. Japão, 2008. De Yojiro Takita. Com  masahiro Motokim Tsutomu Yamazaki, Kazuzu Yoshiyuki e Kimiki Yo



16 Comentários em “ Crítica do Filme – A Partida ”

  1. Rosangela disse:

    estou chorando até agora, uma lição de vida , o perdão e o amor q faz a diferença , do pó voltarás.Maravilhoso e sensível

  2. vanessinha disse:

    assisti esse filme umas três vezes .e já é o suficiente para dizer que é otímo

  3. Dadaziiiinha disse:

    inesquecivel é pouco ele é muito mais q inesquecivel ele é maravilhosamente maravilhoso amowoO muitãozão ;)

  4. DEZA disse:

    mt bom, mais fiko mais bom ainda quando a professora deu um trabalho para fazer uma resenha deli .;e professora gisele :D MT MT lindo !

  5. Marlise disse:

    Filme Imperdivel. Sensivel, trilha sonora linda, fotografia maravilhosa.Muito tocante. Um dos melhores que assisti.

  6. mauro disse:

    Otimo filme. Sensivel e bonito!

  7. Excelente o filme! Assisti neste final de semana. Lindo! Imperdível!

  8. Wilma Monteiro Frésca disse:

    Este filme é maravilhoso. Todos deveriam assistir e aprender o que realmente vale a pena nesta vida, em especial, o respeito ao próximo.

  9. luna disse:

    É um filme belissimo.Muito emocionante.É de dar lagrimas.
    Vale muito a pena ver.

  10. SOLANGE disse:

    Adorei o filme A Partida, um dos filmes mais lindo e sensível que assiti nos últimos anos. Trilha sonora belíssima. ADOREI

    ASSITAM, VALE A PENA

  11. Cheng Yu disse:

    O filme traz reflexões sobre a vida do humano a partir da morte, a qual, é definida como “A Partida”, ou seja, o começo de uma outra vida nova.
    Durante o filme, o diretor propôs uma estética bastante especial e detalhista sobre o trabalho nokanshi do protagonista. Cada gesto, cada expressão e cada olhar dos atores, sugerem respeito dos expectadores perante os mortos, e também, a cerimônia.
    Através da interpretação do diretor, o simples nokanshi, que era considerado como um trabalho vergonhoso, tornou-se numa profissão sagrado e é preciso ser respeitado.
    O filme não possui efeitos especiais nem cenas sangrentas para chamar atenção do público. E sim, simplicidade. Uma simplicidade que gera impacto, reflexão e um novo olhar sobre a vida.

  12. Guilherme Silveira Garcia disse:

    Através da cultura japonesa de cuidar da aparencia de seus mortos antes de sua partida final, é algo que o filme mostra muito bem e nos dá uma outra visão e compreensão dos verdadeiros sentidos e valores tanto da vida quanto da morte.

  13. Eliane disse:

    Mãe melhor filme estrangeiro!!

  14. Junior Ribeiro disse:

    …..Certos filmes tem um lugar reservado no céu!!!! rs….

    …..O Fabuloso Destino de Amélie Poulain……Sonho de Liberdade…..A Princesinha….

    ……são alguns deles….e com certeza…..A Partida…..é mais um….que Deus deve assistir e pensar: A humanidade ainda tem chance…

    ……Sensível…..ao extremo…equilibrado e emocionante….. um dos melhores filmes japoneses da história

  15. Michel Seikan disse:

    Um filme inesquecível. Realmente uma obra-prima do cinema japonês, e porque não dizer mundial. A fotografia, a trilha sonora, o roteiro e direção… tudo perfeito. Plenamente recomendável.

  16. Takeshi disse:

    Vale ressaltar também a dedicação do ator Masahiro Motoki e do diretor Takita que estudaram durante uma década o ritual fúnebre e assim apresentarem uma obra mais convincente, o ator até aprendeu a tocar violoncelo nesse tempo.

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