Crítica do filme – Nine
Baseado em peça da Broadway, por sua vez inspirada na obra-prima cinematográfica 81/2, de Fellini, Nine é um musical sobre Guido Contini, um cineasta da época de ouro do neorrealismo italiano, considerado um gênio, mas cujos últimos filmes foram fracassos. Agora, ele se aventura na realização de mais um, mas passa por um terrível bloqueio criativo, ao mesmo tempo em que tem relacionamentos conturbados com as mulheres de sua vida.
Dirigido por Rob Marshall, do brilhante Chicago e do fabulístico e novelesco Memórias de uma Gueixa, este era uma das grandes apostas para filme do momento, mas foi um retumbante fracasso, pelo menos por parte da crítica, que o massacrou sem piedade.
Sem dúvidas, Nine possui muitas falhas, mas nada que o torne um filme horrendo, um pecado cinematográfico. Há, entretanto, razões, não muito justas, para o filme ser tão mal recepcionado.
A principal delas é que a maioria das pessoas insiste em compará-lo a 81/2, dizendo que o filme é uma adaptação musical do filme de Fellini. Ora, vejam bem, Nine é baseado em uma peça musical da Broadway, esta sim uma adaptação musical direta de 81/2 e muitos dos defeitos que apontam em Nine advêm do material em que o filme se baseia. Sem dúvidas, Fellini foi um dos maiores cineastas de todos os tempos e 81/2 talvez sua maior realização e Rob Marshall é um cineasta bem aquém de Fellini, mas daí a criticar o filme baseando-se em 81/2, não me parece justo.
Analisando Nine por si só, é verdade que as músicas passam longe de serem muito boas ou memoráveis, mas isto é culpa do espetáculo em que o filme se baseia. Entretanto, a maioria dos números musicais são mal encaixados (por exemplo, Be Italian, que é de extrema importante narrativa, pois liga-se ao início da vida sexual e, consequentemente, maturação do personagem, pontos centrais na trama, é totalmente jogada sem uma melhor introdução, perdendo boa parte de seu efeito; da mesma forma My Husband Make Movies);a maioria das personagens e relações são subexploradas;a personagem de Kate Hudson é totalmente dispensável, aparece em duas cenas absurdamente mal construídas e mal encaixadas, apenas para introduzir o número musical de Cinema Italiano; Sophia Loren também está gratuita, aleatória e dispensável no filme, além de muito inexpressiva e tem um número musical terrível de tão tedioso e dispensável; Nicole Kidman continua decaindo como atriz e aqui aparece igualmente inexpressiva, fraca, uma repetição dos mesmos gestos e das mesmas caracterizações que já a vimos fazer; e, acima de tudo, Nine comete um erro imperdoável para um musical: em vários momentos fica tedioso, arrastado, chato.
Todavia, o filme não é só defeitos. Há muitos pontos admiráveis. Muitos não concordarão, mas a direção de Marshall é extremamente sofisticada, bem trabalhada, sua concepção visual e criativa do filme é deslumbrante e cria momentos incríveis, como o encerramento do filme; Penélope Cruz e Marion Cotillard desempenham seus papéis de forma brilhante e dão encanto e forte carga dramática a seus números musicais; a fotografia de Dion Bebee, tradicional parceiro de Marshall, é belíssima e colabora decisivamente para a recriação da época, bem como o figurino e a direção de arte; certos números musicais, como A Call from the Vatican e Take it All, são muito bem construídos e coreografados; a temática e abordagem do filme, ainda que muitas vezes mal explorada, é profunda e visivelmente mais complexa do que o habitual em filmusicais; a decisão de Marshall em manter todos os números musicais no estúdio em que seria filmado o filme de Guido é sábia, pois acentua a idéia de todas as mulheres influenciarem-no ou perturbarem-no, da mente dele estar presa àquele ambiente, sem achar uma solução, e de o cinema ser o palco do devaneio, dos sonhos, da imaginação; toda a metáfora do Guido de 9 anos ainda ser o Guido adulto e daí a imaturidade do personagem é muito interessante.
No fim, parece-me que o saldo é positivo e Nine um filme que merece ser conferido. Entretanto, é certo não esperar um filme muito entusiasta, do qual você sairá cantarolando as músicas, pois Nine não é assim. E faz todo o sentido que não o seja, já que o enredo, ainda que com toques de humor e leveza, é denso e sério, com personagens em crise e conflito
Nine
Nota: 07
EUA, 2009. De Rob Marshall. Com Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Judi Dench, Kate Hudson, Nicole Kidman, Sophia Loren. MUSICAL
Leia Tambem:
- Crítica do filme Lua Nova
- Crítica do filme – Direito de Amar (Single Man)
- Crítica do filme Avatar
- Crítica do filme – Amor Sem Escalas
- Crítica do filme – As Melhores Coisas do Mundo
_______________________________________________________________
Escrito por: Elton Almeida em 12/02/2010
Cadastre aqui para receber nosso Newsletter via e-mail
Assine nosso RSS 2.0 .


