Critica do Filme – O Leitor
São Paulo, 2 de março de 2009
Indicado a 5 Oscars, 5 Globos de Ouro e vários BAFTAs (incluindo melhor filme e direção e tendo Kate Winslet conquistado prêmios por sua interpretação) e baseado em livro de Bernhard Schlink, O Leitor se estrutura em dois personagens: Michael Berg (David Kross/Ralph Fiennes) e Hanna Schmitz (Winslet). Primeiramente temos uma rápida visão de Michael já adulto, em 1995. Depois é apresentado um momento do passado do personagem, em 1958, na Alemanha, quando ele, aos 15 anos, conhece, por acaso, uma mulher mais velha, Hanna, e fica fascinado por ela. Os dois se envolvem em uma relação basicamente sexual, mas que, aos poucos, atinge o ponto sentimental. Hanna inicia Michael sexualmente. Ambos passam tardes juntos, deleitando-se corporalmente e através da literatura. Michael passa a ler várias obras literárias para Hanna, que fica simplesmente fascinada por estas. Entretanto, depois de um tempo, Hanna desaparece e Michael só torna a vê-la anos depois, quando ele é um estudante de direito e ela, uma acusada de nazismo.
É uma trama intensa, que envolve dois planos: o plano intimista dos dramas e sentimentos dos personagens e o plano do sentimento histórico alemão em forma de vergonha pelo nazismo e seus terríveis efeitos.
O roteiro de David Hare é brilhantemente construído, apoiando-se em suas personagens, desenvolvendo-as naturalmente, através de cada etapa, e estabelecendo as ligações e dramas de cada uma. O roteiro não faz uso de maniqueísmos nem artificialidades. Os personagens são extremamente humanos e seus sentimentos, verdadeiros e compreensíveis. Além disso, fortalece-se pela densa questão da vergonha alemã.
Michael é apresentado como um garoto inseguro e introvertido, além de sentimental, características que o acompanham até a idade adulta e explicam certas atitudes suas. O ator alemão David Kross exibe uma excepcional interpretação, ajudando na construção do jovem e do universitário Michael, sabendo compreender o personagem e dosar cada situação emocional do personagem. É uma pena que sua interpretação não tenha sido lembrada nas premiações. Ralph Fiennes, ao contrário, tem uma interpretação burocrática.
Já Hanna é uma mulher simples, um tanto rude, sem grandes habilidades para comunicação, mas também extremamente envolvente e complexa. Muitas pessoas criticaram o filme por apresentá-la, uma nazista, como uma pessoa boa. Discordo completamente. Hanna apenas é apresentada e forma humana e esse é um dos pontos fortes de O Leitor, não apresentar o indivíduo nazista como um monstro, mas como um ser humano falho. E é incrível como a personagem é tão rica psicologicamente, que chegamos a sentir tanto repulsa como pena por ela. Grande parte do benefício da personagem deve-se a Kate Winslet. Como sempre, ela se entrega à personagem, contrói-a de forma extremamente convincente, cria seus maneirismos e expressões e compreende e sabe expressar exatamente as emoções de Hanna.
Assim, o espectador fica preso por essas duas atmosferas, que se entrelaçam: os senti
mentos dos protagonistas e seus envolvimentos e desventuras, e a questão dos atos nazistas, a reação indigada dos alemães perante esse passado vergonhoso e, principalmente, a forma como Hanna está relacionada a eles. Seu envolvimento era, assima de tudo, profissional e, sua falta de instrução e cultura, influenciaram seus atos, ainda que não os justifiquem e suas atitudes ainda sejam vergonhosas. Há, ainda, o encanto da literatura, abordado de forma belíssima.
Stephen Daldry firma-se como um ótimo cineasta contemporâneo. Seus outros dois filmes, Billy Elliot e As Horas, também são ótimos e em seu novo trabalho ele exibe mais uma vez uma direção sensível, minimalista, intensa, competente ao explorar a complexidade de suas personagens, além de exibir enquadramentos e planos belíssimos e bem construídos (uma curiosidade: Daldry tem apenas três filmes em seu currículo e, pelos três, foi indicado ao Oscar de direção). Acima de tudo, Daldry compreende seus personagens e suas situações e, assim, consegue dirigir o filme

com extremo controle, sem nunca perder o fio da meada e ainda garante um ritmo adequado e um clima de tensão emocional.
A fotografia de Roger Deakins é belíssima. Pena que a trilha sonora seja extremamente clichê e repetitiva. Outro aspecto difícil de engolir é a transformação de Michael, que, na época da faculdade ainda é interpretado por Kross e, dez anos depois, é feito por Fiennes. Foram dez anos realmente envelhecedores. Mas, no todo, é um filme a ser visto e
analisado. Belissimamente realizado e injustamente acusado por alguns.
O Leitor : cotação ****1/2
The Reader. EUA, 2008. De Stephen Daldry. Com Kate Winslet, Ralph Fiennes, David Kross. 125min. DRAMA
Comentários
12 comentários no texto: “Critica do Filme – O Leitor”
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a história me pareceu totalmente inverossímel. Apesar do bom desempenho dos atores, o filme nao é daqueles que prende o espectador na cadeira. Tampouco houve uma discussao profunda acerca da situação da Alemanha no pós-guerra. Nota 6
O filme foi muito bom gostei muito,soube fazer o filme a historia super interresante o autor esta de parabens….
Um filme que faz a gente pensar como certos motivos pessoais e problemas podem nos arruinar ou desviar toda a nossa vida. A mente humana é regida de coisas que nem mesmo sabemos o por quê isso acontece! Adorei o filme!!!
O filme é ótimo (ressalvo algumas correções a respeito da passagem do tempo ) . Ao contrário do citado acima o filme prende e envolve sim. Entendi que o foco do filme são as emoções e sentimentos dos dois personagens – a transformação de uma grande paixão pela passagem do tempo – e não uma ” discussão sobre a Alemanha pós guerra ” já foram feitos muitos filmes sobre isso.
Podem assistir, o filme é lindo.
O filme é muito bom!Gostei muito, só que a maquiagem da atriz quando ela está mais velha, fica muito ruim, acho que envelheceram ela demais..
EXEPICIONAL, STEPHEN DALDRY SOUBE COM MAESTRIA ABORDAR UM ASSUNTO TÃO COMPLEXO E DISCUTIVEL, QUE DEIXOU O FILME LEVE, HUMANO E PECULIARMENTE IDIOSSINCRÁSICO!!
O filme ressalta, além das questões nazistas, como as diferentes leituras de mundo influenciam nas atitudes de cada indivíduo. Tal fato é abordado exemplarmente no contraste das principais personagens e justifica, talvez, o título do próprio filme.
Acabo de assistí-lo. Achei razoável. Não concordo todavia que em tal nação houvesse já em 1958 alguem completamente analfabeto. E o “menino” que sabia do segredo deixou que fosse perpetrado tamanha injustiça, é demais. Nesse ponto, parece-me inverossímil.
O que podemos saber do outro, quais detalhes, que sinais indicam, no olhar, no toque, no diálogo ou no silêncio, o que carregamos por dentro?
Quais razões explicam nossas escolhas? O destino, as necessidades, a carência material e sentimental, ou o vazio absoluto, fruto de um coração estéril?
“O Leitor” nos deixa aturdidos: que respostas podemos dar ao outro e a nós mesmos acerca de nossas escolhas?
Ao fim da película, nenhuma resposta, apenas a certeza de que cada um é múltiplo, complexo, indecifrável…
Belíssimo filme!!!!
Achei o filme maravilhoso, acho sim que naquela época existia , como até hoje existem pessoas totalmente analfabetas, e esse, é com certeza o ponto alto do filme.
Ela prefere a condenação máxima, a apresentar seu ponto fraco a todos, o analfabetismo.
Linda a dedicação do “menino”, mandando as fitas para Hanna na prisão, e achei a finalização incrível, quando ele pergunta a ela se ela tinha aprendido alguma coisa, pensado naquilo que tinha feito…
E ela responde que : Aprendeu a ler.
Finalmente Michael ficou livre, e isso fica claro quando ele começa a contar essa surpreendente história a sua filha.
É sim, uma opinião de quem mergulhou no filme, tentando entender a idéia do autor.
O Leitor nos leva a uma grande questão; a busca e o encontro de nós mesmos, o que pensamos e sentimos pelo outro, o que esperamos do outro, compaixão, amor, raiva, são sentimentos que mostra a natureza humana, até onde podemos nos esconder e não revelar aos outros a nossa verdadeira face. Vejam o filme e tirem as suas próprias conclusões. Um Bom filme.
cc