Crônica sobre destino e desatinos

A Bola oito de nossas vidas

Passei minha adolescência nas frias cidades do Sul, onde em noites de inverno a brisa congelava no ar,  nem os cães vadios  ou corujas sinistras davam o ar de sua graça.

Um grupo de amigos viravam a noite no boteco do Seu Neco,  bebendo vinho quente e conhaque e pra afastar o tédio jogávam Sinuca.

O jogo era simples: uma dupla matava as bolas impar e outra as pares e no final uma obstinada caçada pela bola oito. O tempo foi passando juntamente com os personagens daquela mesa que viram suas vidas traçadas em cada tacada como se aquela mesa fosse a metáfora de suas vidas!

Quantas vezes ao mirar na bola nove erramos e por tabela outra bola vai em seu lugar, isso  vale para tudo, amores e paixões que vão ficando pela vida como latinhas de coca cola jogadas ao chão….

Voltando a partida de sinuca sempre busquei a tacada perfeita, aquela cheia de efeitos e tabelas calculada finalizando na derradeira bola oito, acho que todo mundo tem uma bola oito pra matar, uma sina da humanidade, um jogo sem fim que sempre adiamos a grande jogada o epitáfio final, essa enorme batata quente que só esfria na embriagues do vinho.

Havia um jogador que sempre intrigou os demais da mesa, calculista e frio na arte da sinuca um verdadeiro Az da tacada, mas que sempre hesitava em derrubar a bola oito pois via nela o reflexo do seu pai dizendo que ele nunca o superaria, e a sina do jogo estava pronta, o jogador silenciava e mirava a bola pensando na melhor jogada calculava mirava e errava!

Os demais jogadores da mesa, sempre acharam que ele errava de propósito, mas nunca tiveram certeza.

Alias alguém tem certeza de alguma coisa nessa vida?

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