Musica Urbana, o que os olhos não podem ver?
É verdade, a gente só vê o que quer.
Outro dia dentro do ônibus indo para o trabalho vi duas menininhas, bonitinhas, com seus dezessete anos, mais ou menos, ouvindo uma música no seu celular, sem fone de ouvido. Não que a música estivesse incomodando, mas elas estavam embaixo de uma placa dizendo: É proibido o uso de aparelhos sonoros.
Realmente a música não devia estar atrapalhando ninguém, pois nem motorista, nem cobrador, nem passageiros reclamavam. Elas estavam curtindo sua conversa, embaladas pela música.
Eu, que sou um professor, entrei num dilema. Avisar as garotas que havia uma placa sobre elas ou perguntar ao cobrador ou motorista, por que eles colocaram aquela placa ali?
Caso fizesse isso poderiam acontecer duas coisas: ser tido como o chato ou receber o apoio de todos, inclusive das meninas que me diriam que nem tinham percebido e que realmente poderiam esperar até chegar em casa para ouvir todas as músicas que quisessem.
Não fiz nada. Lembrei-me do dia em que o Brasil jogou contra o Japão e ganhou e sai de casa depois do jogo e entrei no ônibus, também para ir ao trabalho. Entrei, atravessei a catraca e sentei ao fundo. Nesse momento dois rapazes se levantaram e li nas costas de suas camisetas: Mudando as estatísticas. Nesse momento uma onda de otimismo me invadiu, com certeza motivada pelo resultado do jogo, e pensei que o Brasil estava melhorando. Mudando as estatísticas devia ser uma ONG, que com arte, educação e esporte, estava mudando a realidade cruel de muitos meninos e meninas das grandes cidades brasileiras, como essa maravilhosa e assustadora São Paulo.
Quando o ônibus parou no ponto para as pessoas descerem, esses garotos, que por um momento me deixaram tão esperançoso, de repente puxaram a bolsa de uma garota e tentaram roubá-la. Foi tão inesperado e eu estava tão absorto em meus pensamentos que até pensei que eram amigos e estavam brincando, mas a garota, forte e decidida, segurou firme sua bolsa e não deixou que eles levassem, saíram do ônibus apressados e sem roubar nada. Claro que ela ficou indignada por ninguém fazer nada, logo, mas logo relaxou.
Nessa ocasião eu estava absorto e não fiz nada, mas e quando vi a menos de dois metros um acidente onde um rapaz quase perdeu o pé, e foi uma das cenas mais dramáticas que vivi, eu não consegui segurá-lo, só consegui correr e pedir que chamassem a ambulância, depois avisei o rapaz que trabalhava com ele e depois fui até a minha sala e chorei, clorei, chorei. Gostava tanto daquele rapaz, que trabalhava junto comigo e imprudentemente atravessara a rua com o sinal fechado, queria tanto tê-lo abraçado e falado – fique forte – confiando que logo o socorro chegaria. Não consegui.
Assim como a gente só vê e olha o que quer. A gente só faz o que quer e quando quer. Mas ficar prostrado diante das incertezas não é uma atitude de quem é livre, de quem sabe escolher. Sinto-me atado e muitas vezes sem ar diante das violências do mundo, da natureza, da sociedade e até da mente humana.
Fico atordoado com tantos mendigos com esparadrapos podres no centro da cidade, fico irritado com as motocicletas querendo atenção as três da manhã, nos despertando sobressaltados dos nossos sonhos, antes de acordar e ir ao ponto de ônibus onde estão todos ali, para novamente ir ao trabalho e depois voltar e dormir e sonhar e ser acordado sobressaltado. Fico chocado com PMs armados e as tropas de choque vomitando suas balas, mesmo quando não estão em serviço, tirando vidas e destruindo famílias. Mas como humano que sou, me expresso por este texto ao invés de conversar com todas as pessoas naquele ônibus, naqueles bares, naqueles lares. E mais uma criança nasceu. Não há mentiras nem verdades aqui. Só há música urbana.
Escrito por Wanderley Damaceno
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