Filme – A Fita Branca
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, no ano passado, e do Globo de Ouro de filme estrangeiro, este ano, além de ser o mais forte candidato nesta categoria ao Oscar, A Fita Branca, após ser exibido em outubro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, agora entra em circuito comercial.
Novo filme do bem quisto pela crítica Michael Haneke – de Caché e Funny Games –, A Fita Branca é um drama sobre fatos misteriosos e dramáticos que ocorreram em uma pequena vila na Alemanha, no período logo antes da Primeira Guerra. A história, narrada pelo professor da vila, é formada por personagens sérios, moralistas e conservadores, que educam seus filhos de forma extremamente rígida e pouco afetuosa, tendo como pano de fundo os tempos difíceis do período.
O que o filme nos mostra aqui são as sementes do nazismo, as sementes de uma grande guerra, do ódio, do conflito. As crianças são o ponto central da trama e vemos que elas são aqueles que, alguns anos depois, estarão dando suporte ao regime nazista. Haneke diz que não quis mostrar o que ocorreu para acontecer o nazismo, mas o que é preciso para que exista nazismo. De fato, ao longo da narrativa, que vai desde a casa dos cidadãos pobres até a casa do grande senhor, vemos uma crônica de uma sociedade fria e hipócrita. Os pais, tão rígidos e severos, estão sempre em contradição, sempre escondem algo e, no fundo, são pessoas fracas. Com a onda de acontecimentos misteriosos na vila – um acidente do médico, um incêndio repentino, crianças atacadas – seus segredos vão vindo a tona e vamos percebendo que essas crianças já não são aquilo que, costumeiramente, esperamos de crianças: já perderam há muito a inocência e são “monstros” que aquele universo criou.
Por falar em inocência, o próprio título do filme refere-se a um hábito de um dos moradores da vila, que amarra fitas brancas nos braços de seus filhos para que eles se lembrem da inocência, da pureza, da bondade. Ora, esses valores já estão perdidos nessa sociedade e tal ato é puramente hipócrita. E, quando é preciso um elemento externo para nos lembrar de um sentimento interno, é porque este já não existe mais ou simplesmente é um fantasma do que já existiu.
Mas reduzir o filme de Haneke a uma película sobre o início do nazismo seria injusto, pois o filme vai muito além disso. A Fita Branca é um grande estudo de ser humano, de psicologia, de funcionamento de sociedade, de relações como pai/filho. Através de personagens e situações muito complexas, Haneke tece teias que nos levam a refletir.
A estética escolhida pelo diretor para o filme é muito adequada. Ele faz uso de um clima tenso, sóbrio, absurdamente sério, com toques de suspense. A ausência de trilha sonora e situações melodramáticas acentuam a crueza do filme e deixam momentos tristes, mais tristes e reflexivos ainda. A fotografia do filme, obviamente inspirada em filmes de Ingmar Bergman, é pautada em um preto e branco frio, excessivamente sério, rígido, que impressiona e intimida.
Filme: A Fita Branca
Alemanha, 2009.
Direção: Michael Haneke.
Nota: 9


