Teatro – O Livro dos Monstros Guardados
O Livro dos Monstros Guardados, de Rafael Primot, com direção de Zé Henrique de Paula e elenco formado pelos sete atores Sandra Corveloni, Otavio Martins, Patricia Pichamone, Luciano Gatti, Daniel Tavares, Fabio Redkowicz e Fabricio Pietro com espetáculos até 26 de novembro, quarta-feira, às 21 horas, no Teatro Imprensa.
O espetáculo integra o terceiro e último módulo do ano do Projeto Vitrine Cultural do Centro Cultural Grupo Silvio Santos. O espetáculo é um dos 12 selecionados no Projeto Vitrine Cultural e recebe apoio para apresentar sua produção, além de ficar três meses em cartaz.
As histórias de Magali (Patricia Pichamone), Madá (Sandra Corveloni), Maurício (Fabio Redkowicz), Max (Fabrício Pietro), Milton (Luciano Gatti), Mestre Eme (Otavio Martins) e Mojo (Daniel Tavares) são contadas em primeira pessoa. Ao mesmo tempo em que o ator é o personagem, é também o narrador dos fatos. É como se o espectador fosse convidado a ler um livro sobre a vida daqueles personagens ou como se a vida dos personagens se tornasse um livro.
São pessoas cheias de ressentimentos, amores, inseguranças e paixões – como todo ser humano. Essas pessoas comuns estão, no entanto, alteradas. De alguma maneira se encontram em uma situação sem saída ou sem perspectiva. Para a atriz Sandra Corveloni, “são pessoas à margem da sociedade, que não encontraram seu caminho, em meio a um universo bastante urbano, bem movimentado. Vivem sem perspectiva, sem arte, sem comunidade, sem troca”.
Sua personagem Madá, por exemplo, é uma vendedora de uma loja de shopping, que também realiza trabalho voluntário. “É uma pessoa muito comum, que vai perdendo a noção do seu espaço, de moral, de limite. Ela vai extrapolando à medida que vê o horror”, revela a atriz. “Ela se acha uma pessoa escolhida por Deus, muito arrogante. Com o tempo, não consegue mais discernir o que pode ou não fazer, ela se torna meio doente.”
Montagem e texto
Sobre a encenação, o diretor Zé Henrique de Paula, do Núcleo Experimental – que tem entre os trabalhos Cândida, Senhora dos Afogados e As Troianas, Vozes da Guerra -, fala que “embora possam ser encaradas isoladamente, as sete histórias são interligadas pelo tema – todos passam por um processo de purgação de alguma monstruosidade específica. E, na montagem, são também ligadas estruturalmente, fazendo com que o espectador possa construir sua rede de conexões entre os personagens. Constrói-se, assim, um microcosmo da sociedade urbana contemporânea, com seus desvios, neuroses, perversões – uma pequena fábula sobre o Mal que habita dentro de todos nós”.
O autor Rafael Primot sentiu a necessidade de falar sobre comportamentos obscuros comuns nas grandes cidades. “Na sociedade contemporânea evitamos a todo custo aprofundar relações, olhar realmente para dentro do outro e perceber suas incertezas, inseguranças, defeitos, vontades incomuns”, explica.
Ao contrário de uma estrutura convencional, não há ação presente. São sete monólogos, depoimentos dos personagens sobre seus sentimentos e ações passadas. Para a atriz Sandra Corveloni, “essa peça é muito diferente, pois tudo está no passado. Para o ator não há um envolvimento pessoal, de viver aquilo no momento da apresentação. Além disso, não se trata de uma encenação naturalista, exigindo um desenvolvimento diferente, mais específico dos atores”.
O texto foi apresentado pelo autor Rafael Primot ao diretor há 5 anos. Durante esse tempo, houve uma espécie de gestação do projeto. “Periodicamente, fizemos leituras do texto, com diversos atores do Núcleo e outros atores convidados. Por já ter montado uma peça do mesmo autor (Revelação, que esteve em cartaz em 2002 no Centro Cultural São Paulo), já tinha familiaridade com o universo de seus personagens e seu imaginário: tipos urbanos, solitários, perdidos e em busca de uma redenção para suas vidas.” O autor completa: “Sabíamos que era um texto difícil e que não aconteceria de uma hora para outra. Felizmente agora o projeto ganha corpo, pele, sangue, urina e suor”.
O elenco
A respeito dos critérios adotados para a escolha dos atores, o diretor diz que parte dos atores é do corpo estável do Núcleo Experimental (Fabrício Pietro, que fez R&J e Mojo; Fabio Redkowicz, que fez Senhora dos Afogados e As Troianas – Vozes da Guerra; Daniel Tavares, que está em Senhora dos Afogados, e Patricia Pichamone, do elenco de Cândida). “Os outros três atores foram especialmente convidados para este projeto: Sandra Corveloni, Otavio Martins e Luciano Gatti”, informa Zé Henrique.
O diretor complementa: “A escolha do elenco privilegia as possibilidades de repertório de cada intérprete, bem como o desafio de ampliar e enriquecer esse repertório. Porém, como em todas as montagens do Núcleo, a direção procura pensar também no coletivo, na coesão entre os atores e numa sintonia de linhas de interpretação”.
Um dos destaques do elenco vai para a atriz Sandra Corveloni, vencedora da Palma de Ouro em 2008 por seu desempenho no longa-metragem Linha de Passe. A atriz, que já havia dirigido Zé Henrique de Paula no espetáculo O Amargo Siciliano e também conhecia as peças dirigidas por ele, conta que já se “paqueravam” há algum tempo. “Ele me mandou o texto, que achei interessante, bem contemporâneo. Seria uma experiência nova, de um texto não naturalista, que apresenta várias dificuldades e desafios para ser colocado em cena”, conta Sandra.
Para o desenvolvimento do elenco, foi essencial o trabalho de preparação corporal, coordenado por Inês Aranha. “As histórias são contadas não só verbalmente, mas principalmente corporalmente”, afirma Sandra. “Portanto, tivemos que construir uma partitura física que nos dê a sensação de quem é o personagem, é tudo através do impulso corporal.”
Sinopse – As sete histórias e seus personagens
Menarca (Magali)
Uma menina de oito/nove anos relata as agruras de uma pré-púbere. Através de pequenas artimanhas, manipula os adultos e toma decisões importantes para sua vida.
A Benfazeja (Madá)
Maria das Dores, também chamada de Madá, quer ajudar aos outros a todo custo, em sua jornada obsessiva de benevolência acaba matando pessoas para beneficiar outras.
A Velha da Janela (Mauricio)
Um jovem com problemas urinários sai mais cedo da escola às quartas-feiras e depara com a figura de uma velha na janela a observar algo. Com o passar dos dias essa imagem acaba perturbando o garoto que reflete sobre relações e sobre a vida de maneira simples e poética.
Ovelhas que Voam (Max)
Em um sanatório, à espera da visita de sua mãe, Max acredita em sua sanidade, mas prefere guardá-la em sigilo, criando personagens e histórias que o mantêm ali.
Pequenos Viventes (Milton)
Maníaco por limpeza, Milton pensa ter encontrado sua grande paixão e, após sua demissão, volta pra casa mais cedo.
Minha Flor Azul-Marinho (Mestre Eme)
Um alto-executivo tecla na internet, declara a um desconhecido sua prática sexual e defende sua opção excêntrica.
Manual para Atropelar Cachorro (Mojo)
Mojo, um jovem que trabalha numa video-locadora, tenta aliviar o tédio e as tensões provocadas pelo estresse urbano, atropelando cachorros vagabundos no centro da cidade sem motivo aparente.
Serviços:
Teatro Imprensa
Rua Jaceguai, 400 – Bela Vista – São Paulo – São Paulo -
Temporada: até 26/11/09
Horária]o: 21h00 – quartas e quinta-feira
Leia Tambem:
- O Teatro
- Teatro, o ator e a Interpretação
- As Malvadas
- Em Cartaz a peça “CORONADO” de Dennis Lehane
- Teatro – Espaço plural
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Escrito por: Redação em 30/09/2009
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